Exibida em 1986 pela extinta Rede Manchete, a novela Dona Beija marcou época ao narrar a trajetória intensa, trágica e libertária de Ana Jacinta de São José (Maitê Proença), mulher à frente de seu tempo que desafiou convenções morais no interior de Minas Gerais do século 19.
A produção, escrita por Wilson Aguiar Filho e inspirada em romances de Thomas Leonardos e Agripa Vasconcelos, construiu um desfecho que sintetiza as contradições de sua protagonista: força, vingança, culpa e solidão.
Como foi a primeira versão da novela Dona Beija?

Ao longo da trama, Beija passa de jovem apaixonada e sonhadora a uma mulher endurecida pelas violências que sofre. Depois de ser raptada pelo ouvidor Mota (Carlos Alberto) e mantida como amante em Paracatu, ela retorna rica a Araxá, mas encontra seu antigo amor, Antônio Sampaio (Gracindo Junior), casado e incapaz de compreender suas escolhas. Movida pela dor e pelo desejo de ferir o homem que ainda ama, funda a Chácara do Jatobá, um luxuoso bordel que escandaliza a sociedade local e transforma Beija em uma figura temida e desejada.
Mesmo envolta em excessos e provocação, Beija consegue reatar com Antônio e tem com ele uma filha, Teresa. No entanto, a relação é marcada por conflitos, sobretudo porque ela se recusa a abrir mão de sua independência e mantém um caso com o promotor João Carneiro (Marcelo Picchi), de quem tem outra filha, Joana. O triângulo amoroso leva a um ponto de ruptura quando Antônio, tomado pelo ciúme, ordena que Beija seja chicoteada quase até a morte.
Um ano depois, a protagonista executa sua vingança mais extrema: manda assassinar Antônio. O crime choca Araxá, mas, graças à influência de João Carneiro, Beija acaba absolvida pela Justiça. Ainda assim, a vitória jurídica não traz alívio. Consumida pela culpa, pela perda e pela consciência de que ultrapassou limites irreversíveis, ela percebe que não há mais lugar para si naquela cidade.
Final da versão original de Dona Beija
No capítulo final, Beija abandona Araxá, deixa para trás a Chácara do Jatobá, as riquezas e a reputação construída ao longo dos anos. Sozinha, parte em busca de um recomeço em outra localidade, carregando as marcas de sua história e a esperança silenciosa de encontrar alguma paz.
O final não é de redenção plena, mas de partida — coerente com uma personagem que nunca se encaixou em moldes e cujo destino sempre esteve ligado à liberdade, mesmo quando ela custava caro.
Dona Beja é remake de Dona Beija?
Quase quatro décadas depois, a história ganhou nova versão com Dona Beja, lançada pela plataforma HBO Max.
A releitura traz Grazi Massafera no papel-título e propõe um olhar contemporâneo sobre temas como protagonismo feminino, violência de gênero e desigualdade social, mantendo a essência da personagem que se tornou um símbolo de transgressão na teledramaturgia brasileira.
Assim, o final aberto e melancólico da obra original segue ecoando: Dona Beija permanece como uma mulher que pagou o preço de viver segundo as próprias regras — e cuja história continua a provocar reflexões sobre liberdade, desejo e poder.
