Barro Preto, um dos principais cenários de A Nobreza do Amor, não existe fora da ficção. A cidade foi criada especialmente para a nova novela das seis da TV Globo, que estreia nesta segunda (16), como parte de um universo dramatúrgico pensado para aproximar o Nordeste brasileiro de um reino africano também inventado, Batanga. Na história, os dois territórios são separados pelo oceano, mas ligados por memórias, heranças culturais e pelo romance entre a princesa Alika (Duda Santos) e o jovem Tonho (Ronald Sotto).

Ambientada nos anos 1920, a trama apresenta Barro Preto como uma cidade do interior do Rio Grande do Norte cercada por falésias, com traços de sertão e litoral convivendo no mesmo espaço. É para lá que Alika e a rainha Niara fogem depois de um golpe de Estado em Batanga, numa travessia que transforma o exílio em ponto de partida para uma nova vida. Embora inventada, a cidade foi desenhada para parecer familiar ao público, com alma de interior, praça central, igreja, armazém, grêmio recreativo e uma dinâmica social típica das novelas clássicas.

Onde fica Barro Preto em A Nobreza do Amor?

Nos bastidores, a construção desse universo exigiu uma operação de grande porte. Nos Estúdios Globo, a produção ergueu os dois polos da narrativa em uma área superior a 4.500 metros quadrados. Desse total, Barro Preto ocupou 3.532 metros quadrados, enquanto Batanga ficou com 974. Cerca de 300 profissionais participaram do processo, que levou mais de três meses até ganhar forma.

A cenografia de Barro Preto foi assinada por Fábio Rangel, que apostou na ideia de uma cidade “parada no tempo”. Para criar esse ambiente, a equipe buscou referências em cidades históricas do Norte e do Nordeste, com destaque para casarios preservados e fachadas coloridas do século XIX. O resultado foi uma arquitetura eclética, com influências diversas, mas sem sinais de modernização. Tudo foi pensado para reforçar a sensação de um lugar suspenso entre tradição, fantasia e memória afetiva.

A organização do espaço também presta homenagem à teledramaturgia brasileira. Barro Preto foi estruturada em torno de uma praça central, modelo que remete a novelas marcantes do gênero. Nesse núcleo, a cidade funciona quase como personagem: é ali que se cruzam o cotidiano dos moradores, as disputas entre famílias influentes e a chegada silenciosa da realeza africana escondida sob novas identidades.

Um dos elementos mais curiosos da cenografia é o busto da mãe do prefeito Bartolomeu. Instalado na praça como se fosse um altar doméstico, o monumento vai ganhar vida na pós-produção com intervenções em computação gráfica, reagindo aos acontecimentos locais. O recurso reforça o tom fabular da obra e ajuda a diferenciar Barro Preto de uma simples reconstrução de época.

Onde se passa A Nobreza do Amor?

Protagonistas de A Nobreza do Amor
Protagonistas de A Nobreza do Amor

Apesar de a cidade ter sido construída em estúdio, a novela também se apoia em locações reais para ampliar sua escala visual. As gravações começaram no Rio Grande do Norte, em dezembro de 2025, com passagens por áreas escolhidas pelas semelhanças geográficas com paisagens africanas. A equipe filmou em pontos como o Parque Nacional da Furna Feia, Dunas do Rosado, Maracajaú e Barreira do Inferno, além de cidades como Areia Branca, Porto do Mangue, Guamaré, Macau, Maxaranguape, Mossoró, Parnamirim, Tibau do Sul e Natal.

Segundo a produção, o estado potiguar foi decisivo por oferecer cenários naturais capazes de aproximar visualmente os dois continentes retratados na novela. Essa busca por correspondências entre África e Brasil guiou não apenas as locações, mas toda a concepção estética da obra.

A ligação entre Batanga e Barro Preto aparece inclusive nos detalhes da direção de arte. Enquanto o reino africano foi pensado a partir da ideia de “terra sagrada”, com elementos como baobá cenográfico, símbolos adinkra, muxarabis e tronos inspirados em referências iorubás, a cidade brasileira recebeu marcas mais discretas dessa herança. Grafismos, soluções arquitetônicas e símbolos como o Sankofa foram inseridos em alguns cenários para sugerir que o Brasil mostrado pela novela também é atravessado por essa ancestralidade.

Batanga existe?

Esse diálogo visual se estende ao contraste cromático. Em Batanga, predominam tons terrosos e alaranjados, deixando os figurinos vermelhos e dourados em evidência. Já em Barro Preto, a lógica se inverte: as casas são mais coloridas, e as roupas assumem tons mais neutros. A iluminação também ajuda a separar os universos: enquanto o reino africano já conta com luz própria, a cidade potiguar ainda vive sob o brilho de lamparinas.

Outro traço importante do cenário brasileiro é sua fragmentação em pequenos mundos. Cada núcleo social ganhou identidade própria, com referências culturais específicas. Personagens de origem libanesa, por exemplo, habitam ambientes com traços associados a essa tradição, enquanto o banqueiro Diógenes vive em um espaço de inspiração mais inglesa. Já o núcleo cômico recebeu uma cenografia mais leve e caricata, em sintonia com o humor da trama.

Além da cenografia, a produção de arte reforçou a atmosfera de Barro Preto com objetos e hábitos de época. As ruas da cidade têm mais bicicletas do que automóveis, e até os meios de transporte coletivos foram pensados para acentuar o caráter lúdico da narrativa. No engenho da família Bonafé, a equipe criou peças cenográficas como sacos de açúcar, rapaduras, amarrações de cana e garrafas de aguardente, seguindo padrões históricos e até adotando grafias antigas para reforçar a sensação de passado.

Com isso, A Nobreza do Amor transforma Barro Preto em mais do que um simples pano de fundo. Mesmo inexistente no mapa, a cidade nasce como peça-chave de uma novela que pretende revisitar os laços entre Brasil e África por meio de uma fábula visualmente ambiciosa, marcada por romance, política, humor e identidade. Entre o reino inventado e o interior imaginário, a trama aposta justamente nessa mistura para construir um universo que, embora fictício, busca eco em referências reais da história e da cultura brasileira.

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